A perda do cariz ideológico e doutrinário dos partidos não reside numa só proveniência, nem essas supostas várias origens devem ser vistas separadamente, mas sim como sistemas de interdependências de causas/efeitos. Começo o texto com a afirmação anterior porque, nos dias que correm, os partidos políticos transparecerem que, consciente ou inconscientemente, os valores e os preceitos que antigamente, nem que fosse através de jargões próprios politizados, serviam para os distinguir, e/ou agrupar em micro e macro famílias políticas ou correntes filosófico/ideológicas, estão a ser deixados de lado. Mesmo que a afirmação que previamente fiz esteja incorrecta e desfasada da realidade interna que se vive nos vários partidos, pelo menos a mensagem que vai passando para fora das estruturas partidárias é essa, e isso parece ser ainda mais evidente nos partidos mais chegados ao "Centro".
Segundo Carlos Jalali, na obra "Corrupção e os Portugueses - Atitudes - Práticas - Valores" - obra já anteriormente citada no blogue para fundamentar o texto que ligava o enfraquecimento da democracia ao fortalecimento da corrupção ou vice-versa –, o afastamento dos cidadãos face aos partidos políticos está a torna-los [os partidos] mais propensos a actos de corrupção, quer a financeira quer a ideológica - aquela que aqui pretendo tratar. Leiam-se na integra as palavras a que me refiro: “Por um lado, este afastamento leva a uma redução do número de militantes, reduzindo as receitas provindas dessa fonte. Por outro lado, aumenta os custos: os partidos não podem recorrer aos seus militantes para as suas campanhas, tendo de recorrer a outras e dispendiosas formas de campanha. Por outro lado, a consequente redução da identificação partidária obriga os partidos a competirem por um mercado eleitoral mais amplo, o que também obriga a maiores gastos.”

Assim, os partidos, envoltos numa espiral de escassez de militantes - até porque dificilmente alguém se identifica com o "nada" -, vontade de fazer campanhas e necessidade de captar votos, colocam-se numa situação político-ideológica insustentável, ficam cada vez mais dependentes do marketing, ficam presos à personalidade e imagem dos seus candidatos e não forçosamente às ideias e aos conteúdos de um grupo ou cultura política. Os baixos níveis de participação política dos portugueses e a ascensão do culto do consumo, do consumo em massa - aparentemente agora virado para distinção, mas que é apenas de aspecto e não verdadeiramente de conteúdos -, sonegam, também por si só, os valores ideológicos - que são tendencialmente actos de cooperação intelectual, nem que seja indirectamente - para segundo plano. Na ânsia de se chegar a um público maior, aquilo que antes distinguia candidatos e partidos, passa agora a ser algo mais mainstrem e capaz de agradar a todos. Como o sucesso político depende cada vez mais do sucesso das campanhas eleitorais e não dos valores em si, a base de apoio humano é intermitente e efémera. O facto dos partidos, pelo menos os maioritários e aqueles onde o Socialismo Democrático tem teoricamente a sua base de apoio lógica, tenderem a tornar-se aparentemente indiferenciados para o exterior - para a sociedade civil -, de passarem a ideia de que, fora as estratégias de campanha - muito ligadas ao marketing eleitoral de circunstancia -, contribui para a ideia de indistinção entre partidos. Daí ser comum ouvir-se da boca do cidadão comum o preocupante chavão: "são todos iguais, só muda a cor". Mas este estado de coisas - as coisas sociais e políticas -, só se alterará, na parte respeitante aos partidos, quando se começar a utilizar o marketing em prol da diferença ideológica, da sua disseminação diferenciadora junto da população e até como reforço interno no seio dos próprios partidos e instituições políticas. Só será possível clarear a opinião pública e definir posições com clareza quando o marketing for uma ferramenta ao serviço da política e das ideologias e não o contrário, ou outro qualquer desvirtuamento. Urge informar, distinguir e definir, só assim se conseguirá manter a independência intelectual dos partidos e enche-los com militantes e apoiantes que os reforcem com mão-de-obra operacional e intelectual. Arrisco-me a dizer que, se isso não for feito, evitando formas comunicativas que reduzem a informação a um "nada" de conteúdos, os partidos deixarão de ter sentido de existência fora e até durante as campanhas eleitorais.
Na obra "Marketing Político e comunicação política" - livro que recomendo para a compreensão de alguns conceitos e assuntos ligados ao marketing político e eleitoral, e até dicas para a execução de campanhas do ponto de vista técnico da comunicação - , coloca-se ao mesmo nível os preconceitos e as ideologias dos eleitores, sem uma ressalva - pelo menos uma que eu tenha notado - em que se considere esses ideologias ou valores como podendo advir de processos intelectuais de análise e tentativa de procura das melhores opções ou ideias políticas . Apesar desta obra ser riquíssima para compreender os fenómenos do Marketing Político e Eleitoral, infelizmente, fazendo aqui uma generalização, ela pode levar-nos a concluir que o marketing está a suplantar os valores doutrinários e ideológicos. Mas até nem será preciso ler nenhuma obra sobre marketing para chegar a essa conclusão, se calhar basta assistir e reflectir sobre algumas campanhas concretas.

Voltando às palavras com que iniciei este texto, seguramente que a desvalorização das ideologias não se deve a um só factor, deve-se a muitos e a muitas vontades (ou falta delas), numa clara relação com a informação (ou também falta dela), tudo remexido no caldeirão imprevisível de uma sociedade dita da informação (real ou ilusória). Todos os envolvidos nestas problemáticas anteriormente abordadas terão a sua responsabilidade pelo decaimento da importância dos valores e das ideologias, enquanto algo de útil politicamente. O cidadão tem a sua quota parte de culpa: pela incapacidade e indisposição natural para a participação política ou pelo menos para se informar devidamente sobre o que diz respeito à sociedade, o modo como existe, se organizar e se de gerir - uma quase definição do que é, ou devia ser, a política . Mas os partidos, ao optarem pela via mais fácil a curto prazo, mas mais perniciosa a longo termo, tendem a afastar até mesmo os cidadãos que se identificariam com suas matrizes dos valores, pois tendencialmente recorrem a grandes campanhas de marketing eleitoral, vazias de conteúdos, dispendiosas e propensas a práticas de corrupção, quando o poderiam evitar através de uma base sólida de apoiantes e militantes coordenados e motivados por valores e ideias comuns - a dita ideologia. Há que colocar o Marketing ao serviço dos valores políticos e não os valores do marketing ao serviço da política.

Como se esperar que o cidadão, mesmo aquele relativamente formado e informado, distinga e diferencie, do lado de fora das estruturas partidárias, quando tudo o que lhe é apresentado soa a vazio e a produtos de cosmética de circunstância matizados para simular distinção?
autor: Micael da Silva e Sousa