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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Entre o ideal e o real

A maior virtude da(s) esquerda(s) é, de facto, o seu pluralismo, como tem afiançado Manuel Alegre nos últimos anos mas, na verdade, também a sua grande fraqueza, resultando na incapacidade de se estabelecerem convergências e consequentemente a autofagia do seu fim comum. A incapacidade de se estabelecerem convergências nacionais tem, não só, raízes históricas nacionais - apesar do maior e, talvez, único e último combate em uníssono contra o regime fascista - como tem, essencialmente, raízes na própria génese e evolução ou construção da(s) esquerda(s). O busílis reside na separação entre o ideal e o real, entre anarco-sindicalistas, socialistas utópicos, socialistas científicos e a social-democracia empírica, claramente maioritária – também, maioritariamente anti-utópica - e que acabou por ceder recentemente, sem estratégia, aos encantos da desregulação - desresponsabilização ? – (neo)liberal, sob a capa da teorização da terceira-via de Giddens. 


Não me cabe fazer e nem acredito na diabolização do socialismo científico, do revisionismo bernsteiniano e dos “revisionismos” da própria concepcção social-democrata de Bernstein ou do(s) liberalismo(s), até porque existe um grau de admissibilidade desde que haja clareza na afirmação de um rumo ideológico. O que critico é a alienação ou o abandono do idealismo e humanismo da discussão e da praxis política à esquerda, considerando-se que a direita guia-se, em oposição ao utopismo e ao optimismo antropológico, pelo individualismo, realismo, cepticismo e até hobbesianismo. Assim, a cedência social-democrata ao empirismo e a contínua cedência do marxismo revolucionário à modelação anti-democrata como comprovada por Kautsky é, tout court, uma subserviência às concepções da direita, seja ela na sua versão libertária ou conservadora. A esquerda precisa de repescar princípios da visão reformadora, sinérgica e humanista de Owen, tal como princípios mutualistas proudhonianos e porque não princípios do capitalismo keynesiano? A esquerda necessita, como oxigénio da sua sobrevivência internacionalista, de arrumar com o seu próprio sectarismo e com o anti-humanismo da ortodoxia marxista e da social-democrata e tender, para a “luta cultural”, objectivando a construção pacifista de uma sociedade aclassista, em estabilidade democrática plena. “Exijamos o impossível”!

autor: Cláudio Carvalho

terça-feira, 22 de março de 2011

Política com ética, antes da Política com ideologia

Quando o Micael da Silva e Sousa me convidou para fazer um post enquanto convidado especial, aceitei prontamente e pensei imediatamente em seguir a linha orientadora deste excelente espaço promotor de intelectualidade e, assim, desenvolver uma "dissertação" ideológica. A minha escassez de tempo levou a que adiasse a minha participação e repensasse a forma da minha intervenção, orientando-a para a ética dos jovens na política partidária.
Ora, não tenho uma visão enviesada ao ponto de, uma forma maniqueísta, considerar todos os que têm uma ideologia divergente como pessoas incapacitadas moral e eticamente. Conheço conservadores mais respeitadores que ditos progressistas, conheço liberais mais sensatos e astutos que muitos socialistas ou socialistas revisionistas. A política partidária portuguesa, que é aquela sobre a que me posso debruçar minorando eventuais erros de julgamento, está incapaz de atrair jovens com qualidade do ponto de vista intelectual, com capacidade de sacrifício e de trabalho em nome da res publica e, sobretudo, inimputáveis do ponto de vista ético. Posso dizer, sem grandes dúvidas, que conheci na política partidária pequenos corruptozinhos com as manhas dos grandes mas, também, conheci menos afortunados que acabaram por se desiludir e abandoná-la ou relegar a participação cívica, a este nível, para um plano bem inferior. Há sempre favores a prestar a fulano e sicrano, ditam as "regras" que geralmente há que tomar as opções mais seguras, não há interesse em estimular o pensamento e o debate crítico e "abanar uma bandeirinha" dá sempre mais resultados que abordar a política de uma perspectiva ideológica ou até meramente técnica. Ou seja, relegando o pensamento audaz mais desalinhado, mais possibilidades sobram para os mais adaptados ao "aparelho partidário".
Assim, enquanto a política partidária continuar a catabolizar-se a si própria, cabe aos poucos que percebem e querem mudar o rumo desta autofagia, tentar praticar entrismo partidário com o objectivo de transfigurar a participação do cidadão comum mas ideologicamente identificado. Na verdade, a política é uma inutilidade sem ética e sem ideologia. A sua desqualificação pode conduzir a sociedade a um rumo autoritário ou anárquico... seja qualquer um dos extremos ideológicos, o futuro não é auspicioso.

Um abraço aos que como os escritores aqui do blogue e demais, continuam a estimular o debate ideológico e a combater a corrupção das estruturas. Este post é tão só um assinalar destas diminutas mas esforçadas práticas... um bem haja!

autor: Cláudio Carvalho
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